MINERANDO O TEMPO (I)

As flores de plástico
duram mais que
o homenageado
igual a segunda via
que subtrai o passado
ao extrair nada
da imensidão vazia
ao chegar do outro lado
resta só o defunto
e a fome insone da carne fria.















A TEIA

Salve-se enquanto há tempo
da espada de Dâmocles
ninguém escapa
ao cruzar o Sirât
alma alguma
te estende a mão
deslizando o scroll
rompes o jogo
imitando um cio
que escapa da boca
como a um néscio
que se quer são
mas vive seu corre
ávido por cocaína
qual voz se afogando
em mentiras
na linha da ilusão
é tudo armadilha.














MINERANDO O TEMPO (II)

O defunto no lodo 
acompanha o sono 
da infértil cripta
que já não é
mais que apagamento
extraindo nada 
do futuro frio
numa noite sem tempo














O HEREGE

O amor só presta quando dói
mas eu, que não sei pecar
revelo caminhos
da dor ao amor
não faço conflito
sigo sem pudor
delírios nãos ditos
não pedem favor
por isso que eu amo
e não sofro de amor.




















CONFISSÃO DE UMA REVOLUÇÃO INACABADA

Pendurei um verso no varal
veio o vento...
o parente...
a censura...
queimaram o varal.
Mas o verso voou
entrou pela janela
e confessou
na tela da sala:
“escrevo porque o mundo me falha”

















SOBRE A RAZÃO

Um louco me disse: "A diferença entre mim e você é que eu aceitei que tudo desanda, e dancei".











IMAGINAÇÃO

Nunca foi loucura
tua mente maluca
que rega o mundo
e acende a chama

é o efeito de quem ama
e não se rende
é a causa de quem vive
e não se cansa.















ENTRELINHAS

O mal do autor é se achar dono da autoria
pra mudar o mundo carece vilania
eles dizem
que homem é bicho tarde
mulher bicho cedo
a merda patriarcal não dá conta
da verdade
civil demais a ponto de atacar a pátria
a metafísica do outro
pôr tudo em gavetas
como a bala perdida que assistes
rasgar a razão
e não explicar nada.










A CONTRATADA

Sobre camas semanais
subia pulmões em ensaios para um olho-mágico
caretas da rua matraqueavam-na de “a Beata das Quatro Mãos” ou “Marina Giletinha”

irregularidades no fino corpo sinalizavam a pele infiltrada
aparecia um advogado cabeludo
aparecia uma patroa grande e detestável
aparecia um jesus curioso, tatuado feito pastel

“foi essa mesma”, gargarejaram e deram de costas

aos passos, em zigue-zague, caminhava ruidosa
curvada ao ponto final (irregularidades na face lépida)

“arrumadeira desde os dez anos”, dizia
usava colarinhos assustados e no RG o sal picava
14 abortos e 2 facadas.









ENCONTRO


Olá, temo que haja bastante pedestres
temo a limpeza do meu sapato toda manhã
temo a lucidez fosca da designer para casamentos

olá, acho que estou anatômico
vejo a travessia leve da mulher dos bambolês pela camada mais alta
entorto o pescoço, vejo um deus rodando em seu tripé de plástico
temo que seja outra camada
temo o olhar de graça da fonte que parece um
despenhadeiro
que parece vou me jogar
que parece a inutilidade da vida
por um instante, olá, temo o incomodo da água corrente
hoje está tão deserto
temo o enigma por detrás da elegância do dispositivo litúrgico
temo a vibração insistente

estou na fase da porta
estou na frente da porta
olá, temo que não seja uma porta
para eu não esperar, abra a porta
entorto o pescoço, e vejo, não posso desentortar
acho que estou anatômico
olá, temo que isso não seja o bastante.













O SONHO DE PAULO


Faz tempo, o repouso português
o código do livro
o touro
o brilho do HD
as pequenas narrativas
e o choque furioso da parede em repouso
faz tempo
que a puberdade
e o tai chi chuan
e as asas do sarmento
comprometem o Paulo
faz tempo Paulo
que você foi ao Nepal
disse que meditava
disse que não tinha horário
que o rush era onírico
e que haviam descoberto uma versão menor do sistema solar
Paulo, você isolou sua novidade num léxico sofrível
omitiu os Lusíadas
faz tempo e tu não se importa
vivendo a pressupor uma roda-gigante.















O DISPOSITIVO DE EROS


Eu saí de uma gruta.
Eu jogo xadrez com a morte.
A necessidade é a mãe do desejo.
O meu ganha-pão é pequeníssimo.
Os vídeos de como tocar violão expiraram.
O homem deficiente põe o lixo na calçada.
O gato do quintal alheio mia como uma fruta próxima da morte.
Os dias de vomitar na pia dos outros foram embora.
Passear com minha sobrinha recém-nascida sugere um desenho japonês.
Anotar falas do Marcuschi é uma tarefa diária.
Pedir dinheiro na madrugada virou rotina.
Tuitaram uma família decapitada hoje em algum lugar do Brasil.
O calor que faz no meu pequeno quarto é em graus célsius.
A velocidade com que leio um romance sem caráter é lenta.
As luzes da minha cabeça recém-fabricada estão fervendo.
O desinfetante que cheirei na taça era suave.
O acesso à mucosa da sua boca não é mais difícil.
O papel que se representa na infância é um acúmulo de pontos para fase adulta.
Discussões aleatórias no celular fortalecem a fluência no português.
Nas aulas de história aprendi bastante sobre Pepino, o Breve.
Hoje não se usa mais o cabelo dos anos cinquenta.
Ao comprar meu primeiro automóvel eu irei à praia.
Ao chegar à praia dançarei a dança da morte.
Ao secar as calças, penso como isso tudo seria se eu fosse uma estátua.
Ao lembrar-me de estátuas imediatamente vem-me Michelangelo.
O mármore puro é um tipo de rocha metamórfica.
Geralmente a Coca-Cola é associada ao sedentarismo.
Hoje, não existe propaganda maior do sedentarismo.
O cinema 3D é o irmão mais novo da Coca-Cola.
Uma vez por mês aprendo cerca de trinta palavras desagradáveis.
O acúmulo de lixo na favela é relativo ao número de sedentarismo que existe nela.
Quando medi novamente, a espessura do meu crânio tinha pouco mais do tamanho da TV aberta.

Quando a televisão era fechada assistíamos música em preto e branco.
Quando pego o seu número provavelmente é você que me liga.
Nosso escudo invisível pode ser maior que a atmosfera.
A cultura medieval pouco entendia sobre a atmosfera.
Antigamente eram os ocultistas que tinham essa possibilidade.
Ainda hoje, existem algumas pessoas medievais.
Essas pessoas queimam suas filhas na fogueira.
Paul Klee foi um pintor suíço, que fez a “Historieta de um anãozinho”.
Se fosse um pintor, eu faria: “O licantrófo”.
Anões e lobisomens não combinam diretamente.
Meu caso com as fitas isolantes é compartilhado com amantes após o vinho.
Professores e professoras raramente utilizam o vinho.
O vinho é uma cultura medieval.
E meu tédio continua breve.

Uma luz adulta se acumula ao novo sedentarismo.
Ao chegar à estátua uma mosca não pensa duas vezes: pousa.
A velocidade com que o papel sugere um vômito é relativa.
Estátuas dos anos cinquenta desinfetam aulas de história.
Discussões breves são maiores que discussões puras.
Uma discussão breve geralmente tende a ser direta.
Eu procuro mucosas atmosféricas para discussão.
Fitas medievais são coléricas e infames.
Professores e professoras entendem um pouco mais do que o simples crânio.
As músicas-chiclete em rádio começaram nos anos 50.
Histórias de anões geralmente são contadas na infância.
Provavelmente a infância é uma idade subterrânea.
Em taças macias e leves, ocultistas brindam na Suíça.
O maior número que já peguei foi um que constantemente doía.
Antigamente construí em mim uma imagem estúpida.
Hoje estou nos vídeos de um milhão de curtidas.
Max Von Sydon interpretou um cavaleiro medieval nos anos 50.
Algumas comidas típicas de hoje são usadas para mandinga.
A Coca-Cola desde sua origem radicalizou sua imagem ao extremo.
Desenhos japoneses antigos contam as melhores historietas.
A vida humana é tão insuportável sem o pecado que viver se tornou impossível sem fitas isolantes.

Nos anos 50 as camas eram mais macias e humanas.
Com o saldo da guerra Ingmar Bergman realizou o “Sétimo Selo”.
50 anões comem comidas radicalmente típicas e insuportáveis.
Histórias subterrâneas são pecaminosas e sedentárias.
A origem das discussões está atrelada basicamente à adoção da Coca-Cola.
Músicas de professores e professoras geralmente começam com voz e sintetizador.
O maior número de taças de mármore é simultâneo ao tamanho do salário.
Número e tamanho nem sempre são simultâneos.
A vida humana é impossível.

Humanos são típicos e geralmente vivem isolados.
Professores e professoras não recebem um salário humano.
As propagandas sobre Coca facilmente estão atreladas à imagem dos anões.
A origem da vida é radicalmente pecaminosa.
Geralmente o mármore não é uma coisa macia.
Em camas típicas se produzem muitos humanos.
A origem, típica, não é humana.

DUBLÊ NO EPICENTRO


A verdade é no sentimento
de fato
tela de data-show atravessa bailarina faltando um verso
e penetra

ao dançar o charleston
Manuel toma cocaína
eu, tomo realidade.





















DA IMPERMANÊNCIA


A poesia não está quieta
endurece afoita, vasculha
versos inteiros

na ponta de conjugar
repete
vícios demais

separa noites sem explicação

viciada sucessível
é em si mesma
livre de escolhas
criança
perdão e navalha.







CONTINUAÇÃO DA MÍDIA QUE TREME

Deixe minha vida em paz
no furúnculo da mesa
nem penso em te furar
a pneumonia escorrega no buraco intenso
não redijo pizza com final no José
sem meter no táxi
continuo tremendo
a poesia me invade.





  

 

 

 

 

 

AR PURO


A literatura é um continuum
sino de moto
coaxar de galinha
caminhão de lixo
porta de carro abrindo
caneta deslizando
dedo sobre o vidro
coceira nas costas
passos no quintal
o cano lentamente pela água
voz 1 (diálogo entre Rita G. e José)
voz 2 (diálogo entre Rita G., José e Maria P.)
chaveiro balançando
voz 3 (José cantando)
motor ligando
buzina de caminhão
respiração lenta
homens girando na rua
folha, ponteiro, caderno limpo
suspiros profundos de Rimbaud.










O POEMA INDIVISÍVEL


Não vou conseguir ler todo
o poema indivisível
mesmo que meu filho ajude
o poema indivisível
não é brincadeira
molécula
tendência a mesquita
por mais que uma bolsa tenha gravador
colcha kitsch
princípio de espionagem
é a fricção
invisível monera
bacilo galáctico
insolúvel dissertação sobre alegria
desenhada em relevo
pelo século XXII
o poema indivisível, antigravitacional
calmante
se vai ter entre Joseph Beuys e sua febre morta
no seu espaço não há ar
ou lagostas de U$$ 60,00
abre-se uma concha por onde espia
germinal ocupante
para cada fogão uma capa
militar do nada, da moda
catacrese, sonegação
Charles Manson começa a pregar:
o céu do devaneio:
guerrilheiros chapados:
nepotistas:
aparecem para pilhar
solilóquios exagerados
não há menos tortura
o Doi-Codi é cheio
mãos imorais elevam as cinzas
o poema indivisível internacional
ativa a indivisibilidade do nêutron
segue uma ordem escultural
não pensa na posteridade
não poderei decepcioná-lo
nem te deixar
que o regime diurno
cuidará de dar conta
religião iniludível
lacrimogêneo na cara do tirano
torturador envolvido
introdução podre
dar-lhe banho de entropia
ácido, pau-de-arara
a lista é infindável
industrializa as mazelas e sua aplicação
o poema indivisível
não merece o seu fim
como um baile d’água
serena ironia na imagem de uma revolução
sem escritor que valha
sem uma falha ou romance afiado
um arquétipo objetivo e digno
livre e próprio, curva
o poema indivisível não falha
não há medo que represente
experiências da feiura
salvo o papa, e suas rimas concretas
em seus machos da cidade cafona
para refletir, que, algumas pessoas, quando tentam decifrá-lo
são elevadas ao alimento abominável
ungidos no bíceps do Super-Man
não comerás nada de bigode, casca dura e vida
uma vespa naturalmente
vai nadar
um triângulo branco saindo
doutro triângulo
induz culturalmente um corte lésbico
no objeto da sala de pratos
põe-se orelhas de pé
a incerteza de um performer
seu contexto no escuro
uma corner em português é esquina
gafanhoto antigerme
LP flexível
engraxate pro céu
rocambole químico
pobre ser distorcido
assalto sem arma
pistola em árvore
madura, caí na primavera
e a ciência legal
disseca um indivíduo, seu baço, seu rim, seu linfoma
seu acrílico
para depois dizer: dois furos, um laudo
o defunto absoluto não deixa fortuna
o que se herda é a reverberação
no poema indivisível
antes do próprio fogo
sairá o tempero de uma ferradura
impressionista tipológico
se seu gosto fosse, coice
que defeito tem?
continente ilustrado
metendo o androide
linda, moça, alcoólatra
vida de listra
cratera
o poema é indivisível.















O ESTRANHAMENTO DE DANIEL CAPRA


Se tua sobrancelha
suspira a corda
e o arame de estilo
bateu foto
e a balança pesa mais que o avesso
de lado
profundo
tu amas
amas como um fundo
respira embaixo do sal
aproxima a lava
queima
apressa o tobogã
vende a guitarra
dorme como um índio
isolado
coração é renúncia.














CLARIDADE

Não se faça disperso
a ferrugem esperta
e o pacto silencioso
umedece estátuas

o dia inicia

metrôs aprendendo a velocidade
soletram stop
encerrando teu coração

“Virgínia”
o outro gritou
e as linhas férreas
fabricam o nevoeiro

veloz e eficiente.








BAILE TRIVIAL


De todos os delitos
a mente cheia
é a mais vazia

olhos vagos
viciados na dúvida
brincam bêbados no wi-fi da felicidade

na vontade de sonhar mais
fazes nada

não há data para partir
quem nunca foi.





















COLAGENS PARA UM LIVRO DE VÊNUS

1.
Maria Pura de Correndo Solta, tinha insights sobre amor na cama, café irremediável e sabatinas no colchão de suas horas

2.
John Dreams apressava o silício erógeno. Perto dos mamilos de ressonância láctea fluía sua ampola abaixo

3.
Em sua mão ponche Lucrécia das Alturas reservava o selo telúrico dos maridos e esposas e plumas e lança de raios vermelho néon

4.
Do músculo espesso a escorrer suor o caviar ao quilo de Cristo Woolf franzia baldes para pichar o muro do confessionário, com aquela tradição ameaçando tecidos eréteis, secreções homeopáticas pela cama bem arrumada de Amara Coração de Mãe

5.
Ester Solteirona ensaiava as frutas sem fantasia e o cansaço abrupto ao escalar a estaca. Os genes de dizer fim disparavam nas ruas do porto

6.
Azuladas que só aleluias feministas do hostel Amazonas saíam para programar chats, encontros de sextas-sábados domingos-de-madrugada

7.
A mente das jogadoras de pés na pele explosiva para um pedaço de carne pulsante batiam tuns-tuns, despejavam ventríloquos, vasos, jeans, fita métrica, abotoaduras

8.
Janaina Love escolheu o caminho das artes. Era solidão na certa. Apalpava o dinheiro pra lucrar mais sexo, dias mínimos, eros longo, mar aberto, pureza, paixão

9.
Ana Shields da Silva apertava o poema branco para casar mais tarde antes do diário para uma estatuária grotesca que criariam juntos sem feeling pra corpo ou disposição febril dos primeiros dias

10.
Correu boato que queriam enxugá-lo, seu pós-corpo-todo-nela, na face vaga, lançou gotas, foi aos nus e se pegou dizendo que tinha jeito e bom empenho na arte de transamar.

ESTUDO PARA POEMA TÉRMICO


Sangrando por dia
Paulo 6:00 da manhã
recebe faltas pelo vazio próprio
na pasta verde de metas frias
escrever é macio
como um jarro vintage de celulose
e o tamanho do jogo
da 2ª parte do recital
encolhe números
lagartixa no muro
cratera de rouquidão
vinil óbvio promocional
bolacha enterrada
doce escorrendo pela fístula da cabeça
caderneta
livro fácil
dócil de margarina
poema ecológico em combustão.











META NACIONAL


Faltou o poeta
o poeta empírico
usando paus
para todo evangelho

há muita beleza no mundo
e desperdício
e destruição

o trabalho é um escravo
e escreve em luto
estrada estreita
este teto é nossa cruz
uma voz calada
texto sem palavra.








A VIDA IMPLÍCITA DAS ÁGUAS


Quatro da manhã o ovo acena
patas rotas de inóspita brancura
ave ovo, como é triste nascer
molhada ave clara
trincada na asa
longe
seu braço voa
a beleza do ovo está na leveza
toda pálida
vazia e contente.



























OS ESTRANHOS


No silêncio da cachaça repito
a adaptação do mundo
sexta calada

separamos José
dos outros diabos em pó
esquentamos a máquina
do dia
escurece

dominando o sabão
a cabana amanhecida
rega a brasa

torço o forro
e te ajudo nas facas.

FUMAÇA


Tudo é passageiro
tudo!
prato bom
prato ruim
só os dias ficam
quando acabam as horas
quando acaba o isqueiro.

INIMIGOS PÚBLICOS


O futuro parou
esqueça a continuação.
Tão abarrotada
a vida está
fingindo movimento
e você não viu

com tuas botas Nike e luvas de cetim
parindo verbos que te custam os olhos
e contributos à farsa.

Ouviste pouco
falas demais, imitas completamente

antes que se empanturre
entre atualizações e coraçõezinhos
enfia o grão da loucura no fundo úmido da fé
respira
a espera da chuva
onde ficam os miúdos
dá a terra o que é da terra.

Muda o vaso, vaga na dor

não pira

tristeza é pressa por felicidade

é fácil ser bom com hipnose
até o mal tem horas
esses olhos doidos
como tomar soda enquanto o mundo explode
ou julgar defuntos que passam pela via.














O FIM



Como sempre
a vida recomeça

disfarçada de morte
destroça as intrigas
no caixão da dúvida
num soluço até

é que Gaia não brinca
reinicia o sistema
enquanto você é rápido demais

lá fora
a histeria
o surto do caos
calamidade e calor

eita calor!
mas a brisa é tanta
que não sinto o gás da Idade da Contaminação

o fim da instalação

só podia ser hoje
dia pra mudar
cancelar a TV
de livros abertos

cancelamos a cena
da falsa ideia de pátria
e tu
tumulto mascarado

funeral adiado
partilha do medo.




FESTA NO CENTRO


É chegado um novo tempo
de descanso após a aurora
que os humanos resistiram
juntos da pior hora

é chance de reviver
transformando relações
um abraço abre as portas
e todos damos as mãos

veja o recomeço
que agora corre a Terra
a energia coletiva
o início de outra era

estamos de novo unidos
na jornada que se pôs
a ciranda universal
da esperança no amor.










LUTO DESPEDAÇADO


Morte, vaga morte
tão perto, tão longe
sem tempo à revelia
sem raça, sem nome

devora o sonho perdido
seguindo a poeira da luta
seu verdadeiro sentido
até quando me procuras?

essa sanha tristonha
essa monstra à espreita
tédio boiando na estrada
faca afiada na terra

erra o que for preciso
aprende a reaprender
ninguém sabe a resposta
morrer é um renascer.










FLEXÃO



Que é escrever?
Morrer?

reler?
medir o que não sofri?

Matar.
Enterrar.
Desenterrar.

Cristina Doida pensava que a vida era lida em capítulos
e na próxima divisão
não teve tempo

nua
quase caída
contando pratas para o último gole
sem palavras

e a solidão do significado.





VIVER PERIGOSAMENTE


Transforme ou aceite o mundo
a Primavera volta
e com ela a brisa
abrindo o livro do dia
quebrar ovos pra omelete
é preciso.















ESTÔMAGO


No meio do caminho
não havia nada

pedra, sombra, salvação
eterno-retorno

aquele hino
que afunda a pátria

verdade sem profeta
épico sem herói

a vez de Esthefanny
ir à privada e dormir

num copo de coca
aprovar a morte

eu sinto
viver é contraditório.







ALQUIMIA


Silêncio
teus olhos doidos
não falam
do abraço molhado
debaixo do paredão
a mudança ferve
virtude que virou vício
tudo mudou, nada mudou
queria viver de sal
a alegria da panela
o mar me basta
nado além.

CORPUS LIBER


De caco em caco
meu coração
dilata
reza o gozo
de joelhos
troca de opinião
finge de morto
silêncios passam
minha alma passarinho.